sábado, 3 de maio de 2008

Criança mimada


O telefone toca. Do outro lado ouve-se uma voz de mulher ligeiramente irritada.

- Olha aqui, vamos fazer alguma coisa pelo amor de Deus. Eu não faço mais nada, só fico enfurnada dentro de casa.

Logo respondi a tal apelo:
- E você acha que eu tenho feito oque? Andado pelas noites de Paris?

Grave, muito grave.

Confesso que o isolamento tem sido um exercício satisfatório. É uma forma de não se doar para o outro e não atirar-se na vida. A posição de espectadora há um bom tempo me fascinou. Não dividir meu pensamento com pessoas não interessantes tem sido uma ótima resolução e um ótimo esconderijo.

Tudo bem, não há nenhum altruísmo nesse comportamento. Compreendo que talvez seja o momento de cercar-me de pessoas realmente interessantes. Chega uma hora na vida, na minha e na de todos que algumas prerrogativas e até algumas pessoas têm que ser deixadas para trás.

O questinamento aqui é se devo me render e descontruir a heroína que supostamente sempre habitou em mim, ou se devo preservá-la. Creio que sem querer já estou a desconstruindo e expondo algumas verdades.

Vamos por partes então:
Sim, sou mulher guerreira, movida pela ânsia do novo, alimentada das paixões que invento para ocuparem os lugares que eu por mim mesma jamais visitaria.
Tenho fraquezas de menina indefesa e confesso certa dificuldade em admití-las. Pedir colo nunca foi mesmo meu forte sempre achei mais interessante estar do outro lado da moeda.

Chega o momento, porém, em que há de se descobrir uma outra valentia. Valentia de olhar para as próprias fraquezas e reconhecê-las como minhas. Não, não é o mundo que sempre está errado, há a possibilidade (ainda que não me agrade) de eu estar errada ao menos uma vez na vida.

Sim, talvez seja tempo de reconsiderar algumas certezas e dar um passo para o lado a fim de tentar um novo caminho.
Menina mimada pela mãe, pelo pai, por amigos, pelo amor, pela dinda, pela avó. É difícil ouvir não. Mas essa danada da vida vem me negando algumas coisas que cismei de querer.
O mais irônico de tudo isso é que justamente o brinquedo que a vida não quis me dar seja aquele mais valorizado, almejado.
Sempre gostei de desafios, da conquista, do poder, do vencer. Mas há aqui a necessidade de crescer.

Começa o diálogo:
- Entenda que você não vai ter tudo o que quer sempre. Você não é mais ou melhor que ninguém.

Em seguida a justificativa:
- Ah, mas foi melhor assim.

Pergunta:
- Melhor pra quem? Por que não?

Para e pensa.
- Não, dessa vez não vou fazer pirraça. Vou por ali, mesmo que o ali não me coloque em posição interessante. É chega a hora de rever. Rever as formas, as coisas, as pessoas, os valores. É chegada a hora de olhar pra dentro.

É tomada por uma sensação de paz.

4 comentários:

Carol Montone disse...

putzs precisava ler isso hoje
muito bom amiga
vc está cada vez mais afiada e melhor...essas "releituras" já surtem efeito em ti pode ter certeza. parabéns pela coragem!
beijosss sempre teus
Carol Montone

Ela disse...

Estou percebendo que me identifico com tua escrita.
Não sei exatamente se esta é você, mas:
"o brinquedo que a vida não quis me dar seja aquele mais valorizado, almejado."
É impressionante como desejamos sempre o que a vida não quer nos dar. Passa ater mais sabor e mas sentido. uiaaaaaaaaaaaaaaa

FINA FLOR disse...

adooooro essa foto!

Lu, querida, tens razão: é preciso ser valente para reconhecer as fraquezas, mas ó, a boa notícia é que estamos indo beeeem ;-)

beijos, bela

MM.

Rafaella Coelho disse...

Isso mesmo, Lú!
Quando olhamos para dentro e paramos de pensar por alguns instantes conseguimos compreneder melhor o mundo...
beijos