terça-feira, 20 de maio de 2008

Castelos de Areia


Um dia sentada a beira da praia vi meu castelo de areia ser destruído pela imensa força do mar. Ali fiquei sem nada poder fazer .
Pela primeira vez senti-me impotente e aquela sensação incomodava, era dolorido sentir que contra algumas forças nada se pode fazer. Tive vontade de gritar, de fugir, de sumir. Mas não fiz nada disso.
Deixei uma lágrima correr e percebi que algumas coisas são porque simplesmente têm que ser.Percebi que ser forte naquele momento não era mover o mundo a meu favor e bater o pé feito criança que quer sorvete.
Não, dessa vez não tentei remar contra a maré. Apenas deixei que a vida seguisse seu curso natural. Não tentei intervir.
Não, não foi um movimento voluntário de abdicação. Foi mera falta de força pra ir de encontro ao que tanto temia. Estava ali, diante daquele castelo que havia construído e pensado nos mínimos detalhes.
Durante um bom tempo havia me dedicado a erguê-lo e ornamentá-lo da forma mais poética possível. Depositava ali toda a minha atenção e dia após dia me encantava ainda mais com aquilo que acreditava ser meu porto seguro, minha obra prima.
Ver o meu projeto ser devorado sem que pudesse ao menos tentar resgatar me consumia. Não entendia bem o porquê daquilo tudo.
Fui invadida por uma sensação de dever cumprido. Sabia que aqueles sentimentos de despedida e de luto eram necessários. Era uma dor, mas agora não era mais latente.
Percebi que o luto podia ser um lugar melhor do que a melancolia das tardes passadas admirando aquele velho castelo.
Percebia que no luto havia a possibilidade de movimento. Quando nada mais se tem a perder é chegada a hora de construir. Mas como construir sem antes desconstruir?
Desconstruir idéias, valores, personagens. Desconstruir a si mesmo e dar lugar a um novo, ainda que o novo seja duvidoso.
Algumas idéias caducam, mas nada pior do que pessoas que caducam. Nada pior que o anacronismo, a falta de espaço no hoje, um projeto de vir a ser.
Não cabe mais. Nada que venha a ser cabe mais aqui. Aqui cabe gente decidida a ser feliz e a me fazer feliz. Aqui cabem amigos que torcem e não promessas que nunca se cumprem.
Não quero mais palavras, quero ação. Não quero mais elogio, bom dia, boa tarde. Quero ser viva nem que para isso antes algo em mim tenha que morrer.
Se tiver que amar, que ame. Se tiver que doer, que doa.
Se tiver que aprender, que aprenda a me reinventar.


Obrigada as irmãs Montone pelo carinho inenarrável que sempre dispensam a mim, seja tomando uma sopa no Cafeína, seja virtualmente. A vida fica mais fácil com vocês...

2 comentários:

Carol Montone disse...

Querida obrigada você também pela companhia. Ao seu lado, até mesmo esperar que os castelos de areia se dissipem de vez é mais divertido, mais leve.
A reciprocidade está entre as melhores coisas da vida. É quando somos apenas fluxo. Movimento bom. Brisa que fica apra sempre. Te adorooooooo!!!!!
"É preciso desmanchar-se para dilatar a alma"...teatro mágico...
"Não existe luz sem sombra" Fatima Toledo - preparadora de elenco
"A luz sempre ilumina o escuro e não o contrário"....mestre DeRose
ainda seremos muito melhores amigas...mas não de um vir a ser, porque já somos a coragem de tentar no hoje aquilo que queremos para ontem...
muitos beijos
vc escreve cada vez melhor
cada vez mais intenso
mais você
mais sentidos
Carol Montone

Ela disse...

É possível elogiar sempre, porque a cada texto você s e supera , acredite, assim eu sinto.

Se tiver que " " que seja. Também encaro a vida bem assim, e que seja logo , antes que muito tarde.


Texto maravilhoso, quem ja não percebeu alguns castelos serem tomados pelo mar?