
De tempos em tempos borbulham na boca do meu estômago palavras que estiveram ali uma vida e meia mas, que por algum motivo especial, tiveram seu tempo de jorrar. É como se elas estivessem a espera do tempo que as coubesse. Como um feto aguarda nove meses. Caso contrário, corre o risco de vir inacabado e frágil de incubadora.
Minhas palavras só brotam quando estão prontas, antes de solarem no forno que me habita, mas, não antes de seu tempo de nascer. Na verdade, acredito mesmo, que elas surjam quando perco formato. Quase como um veículo de redenção de uma parte de mim que não se acha e nem se perde. Estanca.
Só não entendo exatamente qual a parte de mim que fica agora. Sim, porque tudo fica, e não está permanente. Sou fluida como riacho e tenho dias de ressaca violenta de mar. Daqueles que destrõem aterros, que devastam qualquer existência. Em quanto amor de mim cabe tudo isso?
Em quantas interrogações cabem as dúvidas do meu ego? Em quantos pontos finais cabem minhas dívidas emocionais? Em quanto tempo se resolve o que se leva uma vida para entender? Em quantos entraves me divido para me justificar? Em quanto de risco há razão? Em quanto de tesão me cabe o gozo?
Porque não estou perdida, sem rumo. Apenas com uma imensa preguiça de percorrer o caminho necessário. Não que tomar decisões me pareça um bicho de sete cabeças mas arcar com seu peso é o que, não me trava, mas asfixia.
De acreditar no ser humano e me jogar na vida, porque, na razão pura se encontra o ardor das maiores paixões. Das paixões que superam a mania incontrolável, incontestável de racionalizar para que tudo caiba na palma da mão. Mas o que cabe na palma da mão, em geral, é muito pequeno pra quem vive de transbordar. Porque talvez a dor tenha uma relação dialética com o poeta. Nutre mas destrói.
Assim como meus amores inventados para provar de uma vã ansiedade de mim mesma. Todos eles com um único fim. Esmagados quando outro mais interessante é encontrado sem querer, em meio ao caminho.
Quase sempre funciona assim. E de tempos em tempos jorro palavras. Como se muito fosse muito pouco. E bastante não o suficiente.